O efeito do tempo sobre os achados na coluna vistos por Ressonância Magnética: o que realmente está acontecendo?

A ressonância magnética da coluna frequentemente descreve degeneração discal, perda de sinal do disco, redução da altura discal e outras alterações estruturais que, para muitos pacientes, soam como evidência de deterioração progressiva da coluna. O problema começa quando esses achados passam a ser lidos de forma isolada, sem consideração pela idade, pela história natural do disco intervertebral e pela relação nem sempre linear entre imagem e sintoma.

Um estudo longitudinal publicado em 2026 trouxe uma contribuição importante para essa discussão. Os autores acompanharam indivíduos saudáveis da infância à vida adulta, com avaliações seriadas por ressonância lombar ao longo de 26 anos. O objetivo foi descrever como a degeneração discal progride com o tempo e como esses achados se relacionam com dor lombar ao longo da vida.

O ponto central do estudo é simples e relevante: os achados da ressonância mudam com a idade, mas essa mudança não ocorre de forma uniforme ao longo da vida nem tem significado clínico automático.

O que a ressonância está mostrando, afinal?

No contexto do estudo, o foco principal foi a degeneração dos discos intervertebrais lombares. Para medir essa progressão, os autores utilizaram a classificação de Pfirrmann, que gradua o aspecto do disco na ressonância de acordo com características como sinal, estrutura e distinção entre núcleo pulposo e anel fibroso. A partir disso, foi calculado um escore somando os graus de todos os discos lombares, o que permitiu acompanhar a carga global de degeneração ao longo do tempo.

Esse tipo de alteração não corresponde a um evento agudo. Trata-se de um processo estrutural progressivo. O disco perde parte de suas características originais, sobretudo hidratação e organização interna, e passa a apresentar alterações visíveis ao exame. A ressonância, portanto, registra a evolução morfológica do tecido discal.

O efeito do tempo sobre os discos intervertebrais

O estudo mostrou aumento progressivo das alterações discais ao longo do seguimento.. O dado é importante porque mostra que alterações estruturais podem surgir muito antes do que o senso comum costuma supor.

Isso não significa que toda alteração precoce tenha expressão clínica relevante. Significa apenas que o disco intervertebral passa por mudanças detectáveis ao longo do tempo, e que a ressonância é capaz de documentar essas mudanças mesmo em indivíduos saudáveis.

O estudo também mostrou que o escore global de degeneração aumentou significativamente ao longo das avaliações. Em outras palavras, o tempo, por si só, esteve associado a uma progressão dos achados estruturais na coluna lombar.

Adolescência: uma fase de progressão mais rápida

Um dos achados mais interessantes do trabalho foi a diferença de velocidade da progressão conforme a faixa etária. A taxa anual de progressão foi significativamente maior entre 11 e 19 anos do que entre 19 e 34 anos. Os autores encontraram um aumento anual do escore de degeneração de 0,55 entre 11 e 19 anos, contra 0,08 entre 19 e 34 anos.

Esse resultado chama atenção porque desloca a discussão da degeneração discal para mais cedo do que habitualmente se imagina. Em vez de encará-la como fenômeno típico da meia-idade, o estudo sugere que a adolescência pode representar uma fase de aceleração estrutural importante na história natural do disco.

Os autores discutem possíveis explicações biológicas para isso. Entre elas, a redução da densidade celular do disco, a substituição de células com maior capacidade regenerativa por células mais maduras, a diminuição da síntese de proteoglicanos, a perda progressiva de água e mudanças na nutrição do disco relacionadas à vascularização das placas terminais vertebrais.

O ponto relevante, do ponto de vista clínico, é que a progressão estrutural não parece seguir um ritmo linear ao longo da vida.

Nem todos os níveis da coluna se comportam da mesma forma

A progressão também não foi homogênea ao longo da coluna lombar. Os níveis L4-L5 e L5-S1 foram os mais frequentemente e mais intensamente acometidos, enquanto os níveis mais altos, como L1-L2 e L2-L3, mostraram progressão menor e geralmente mais discreta. O nível L3-L4 teve comportamento intermediário.

Esse padrão é coerente com o que se observa na prática: os segmentos lombares baixos costumam concentrar maior carga mecânica e maior exigência funcional. O achado do estudo reforça que a distribuição das alterações vistas na ressonância não é aleatória. Existe uma vulnerabilidade maior dos níveis inferiores da coluna lombar ao longo do tempo.

O que esses achados permitem concluir

O estudo permite afirmar, com boa consistência, que a degeneração discal lombar progride da infância para a vida adulta, que essa progressão acelera durante a adolescência e que os níveis lombares mais baixos são os mais suscetíveis. Também mostra que indivíduos que apresentavam degeneração aos 34 anos já vinham seguindo uma trajetória mais acentuada de progressão desde fases anteriores.

Isso tem uma implicação prática importante: parte dos achados que aparecem na ressonância de um adulto jovem ou de um adulto na terceira década de vida não representa necessariamente um fenômeno recente. Em muitos casos, trata-se de um processo estrutural que vinha se desenvolvendo ao longo de anos.

Achados na ressonância significam necessariamente dor?

Não. O próprio artigo é cuidadoso nesse ponto.

Os autores observaram que participantes que relataram dor lombar ao longo da vida apresentavam, aos 19 anos, degeneração mais extensa ou mais intensa do que seus pares assintomáticos. Isso sugere uma associação entre maior carga degenerativa precoce e história de dor lombar.

Mas essa associação está longe de ser absoluta. Aos 34 anos, a diferença entre sintomáticos e assintomáticos ficou menos nítida, em parte porque alterações degenerativas passaram a ser frequentes também em indivíduos sem dor relevante. O estudo reforça, portanto, um ponto que a literatura já vinha indicando: alterações na ressonância podem estar presentes em pessoas com dor, mas também em pessoas sem sintomas.

Essa distinção é essencial. A imagem mostra estrutura. A dor depende de interpretação clínica. Entre uma coisa e outra há uma distância que não pode ser ignorada.

Quando esses achados merecem atenção médica

O fato de alterações degenerativas serem comuns não significa que devam ser sempre desconsideradas. Elas merecem atenção quando há coerência entre imagem e quadro clínico, especialmente nos casos de dor persistente, recorrente ou funcionalmente limitante.

O ponto não é banalizar o laudo nem o transformar em sentença diagnóstica. O ponto é integrá-lo à avaliação clínica com o peso adequado.

Conclusão

A ressonância magnética da coluna registra mudanças estruturais reais que se acumulam ao longo do tempo. O estudo de Lund e colaboradores mostra que essas alterações podem surgir cedo, acelerar na adolescência e se concentrar sobretudo nos níveis lombares mais baixos. Também mostra que a presença de degeneração no exame não equivale, de forma automática, à presença de dor clinicamente explicada por aquele achado.

A utilidade do exame depende da forma como ele é interpretado. Fora do contexto clínico, ele descreve morfologia. Dentro do contexto clínico, ele pode ganhar significado. Essa distinção continua sendo o ponto central.

Lund T, et al. Progression of lumbar disc degeneration: a 26-year follow-up study of healthy individuals from childhood to adulthood. Spine J. 2026.

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Dr. José Osvaldo Barbosa Neto é médico anestesiologista e especialista em Medicina da Dor, com atuação em São Luís (MA). Atua no manejo de dor crônica complexa, com foco em abordagens intervencionistas guiadas por imagem e cuidado individualizado do paciente, no contexto do INEURON – Instituto do Cérebro e Coluna do Maranhão.

Aviso importante: As informações deste texto não substituem uma avaliação médica. Cada caso de dor crônica é único e deve ser analisado individualmente.

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Dr. Osvaldo Barbosa

Médico Especialista em dor em São Luís-MA

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